Do pensamento filosófico sobre o ato de contar histórias até a narratologia como ciência, e sua abertura contemporânea. Clique em cada marco para expandir.
A Poética é o ponto de partida mais remoto da reflexão sistemática sobre narrativa. Aristóteles analisa a tragédia e propõe que toda narrativa tem uma estrutura de começo, meio e fim: a ideia de trama como organização causal dos eventos.
O conceito central é mímesis (imitação da ação humana) e a distinção entre mostrar (mímesis) e contar (diegesis). Essa distinção vai reaparecer dois mil anos depois, reformulada, no coração da narratologia estruturalista.
Aristóteles não está fazendo "teoria narrativa" como campo. Está fazendo poética. Mas suas categorias (enredo, personagem, reconhecimento, peripécia) se tornam matriz de quase tudo que vem depois.
teoria narrativa pré-técnicoNa retórica latina, narratio designa a parte de um discurso persuasivo em que o orador expõe os fatos do caso: o que aconteceu ou se supõe ter acontecido. Quintiliano define com precisão sua função e posição no discurso forense.
Esse uso é bem diferente do sentido contemporâneo: narratio é uma função retórica localizada. A palavra vai viajar para as línguas modernas e, séculos depois, virar "narrativa".
É daqui que vem a etimologia: do latim narrare (contar, relatar) via narrativus.
retórica etimologiaEntre os séculos XIV e XVI, a família lexical entra nas línguas modernas sobretudo pelo francês (narrative/narratif) e se estabiliza no inglês um pouco mais tarde. O adjetivo inglês narrative aparece por volta de meados do século XV; o uso como substantivo ("um relato, uma história") está atestado desde o século XVI. Ainda é uma palavra comum, sem estatuto teórico.
A palavra circula dessa forma por séculos: nomeia atos de contar, relatos, histórias. O uso de "teoria narrativa" como termo explícito aparece já em meados do século XX, com teóricos alemães como Lämmert (1955). A palavra "narrativa" como categoria abrangente e consolidada de um campo de estudos se estabiliza com o estruturalismo francês dos anos 1960.
etimologia línguaEm 1917, Viktor Chklóvski, crítico literário e teórico russo, publica "A arte como procedimento" e inaugura o formalismo russo: a proposta de tratar a narrativa como forma, separando o que é contado (fábula: os eventos em ordem cronológica) do como é contado (sjuzhet: a ordem e o modo do relato). Essa distinção vai ser retomada e reformulada por Gérard Genette, crítico literário francês e teórico da literatura, em 1972, como a relação entre história e discurso.
Em 1928, Vladimir Propp, folclorista e linguista russo, publica a Morfologia do Conto Maravilhoso: analisa centenas de contos folclóricos russos e identifica 31 funções narrativas recorrentes, organizadas numa sequência canônica, com variações possíveis. É o primeiro modelo estrutural rigoroso de narrativa.
Os formalistas estudam a literatura como tal, sem ainda construir uma "ciência da narrativa" generalizada. Seu método vai ser decisivo para o estruturalismo francês dos anos 1960.
formalismo estruturaWalter Benjamin, filósofo e crítico cultural alemão, publica em 1936 o ensaio "O Narrador", escrito a partir da obra do escritor russo Nikolai Leskov. O ensaio é teoria narrativa filosófica e histórica: Benjamin pensa a narrativa como forma de transmissão de experiência (Erfahrung), conselho e memória coletiva, e diagnostica seu "declínio" na modernidade.
Para Benjamin, a guerra, a técnica e o jornalismo de informação esvaziam a experiência transmissível: as pessoas voltam dos eventos "emudecidas", incapazes de convertê-los em história partilhável. A informação chega pronta, fechada, verificável, e morre quando deixa de ser nova. A narrativa, ao contrário, guarda força germinativa.
O ensaio distingue três figuras: o narrador (forma artesanal, enraizada em comunidade), o romancista (indivíduo isolado) e o jornalista (informação pura).
Benjamin trabalha com Erzählung (narração) e Erzähler (narrador/contador de histórias) como categorias histórico-filosóficas, anteriores ao vocabulário técnico que a narratologia vai criar depois.
teoria narrativa filosofia experiênciaEntre os anos 1940 e 1950, surgem reflexões que começam a tratar a narrativa como objeto de análise sistemática, antes do estruturalismo francês. Formulam categorias que a narratologia vai depois formalizar.
Em 1946, Jean Pouillon, antropólogo e crítico literário francês, analisa o ponto de vista no romance em Temps et roman. Em meados dos anos 1940 (com formulações entre 1946 e 1948), Günther Müller, teórico da literatura alemão, distingue erzählte Zeit (tempo narrado: duração dos eventos na história) de Erzählzeit (tempo da narração: tempo que o texto leva para contar). Essa distinção ressurge em 1972 em Gérard Genette como a relação entre história e discurso.
Em 1955, Eberhard Lämmert, teórico da literatura alemão, propõe os termos Erzähltheorie (teoria narrativa) e Erzählforschung (pesquisa narrativa), pensando o campo como disciplina. No mesmo ano, Franz Karl Stanzel, teórico da literatura austríaco, constrói três "situações narrativas" prototípicas a partir de uma perspectiva filosófica.
precursores tempo narrativoWayne C. Booth, crítico literário e teórico da narrativa americano e professor da Universidade de Chicago, publica em 1961 The Rhetoric of Fiction (sem edição em português). O livro introduz dois conceitos que vão marcar a teoria narrativa de língua inglesa: o narrador não confiável (aquele cujos valores ou percepções divergem das normas do texto) e o autor implícito (a imagem do autor que o texto constrói, distinta do autor real).
A dimensão ética e retórica que Booth traz, pensando a narrativa como forma de persuasão com implicações morais, diferencia a tradição americana da narratologia estruturalista francesa, centrada em gramática e universais.
retórica éticaO número especial da revista Communications ("L'analyse structurale du récit") é o marco fundador da narratologia estruturalista francesa. Reúne Barthes, Genette, Greimas, Todorov e Eco numa proposta coletiva de análise científica da narrativa.
A inspiração vem de Ferdinand de Saussure (linguística estrutural), Vladimir Propp (funções narrativas), Claude Lévi-Strauss (antropologia estrutural) e Noam Chomsky (gramática gerativa). A ambição é identificar a gramática profunda presente em todas as narrativas, independentemente do conteúdo.
É o momento em que a teoria narrativa vira explicitamente uma ciência: com método, metalinguagem técnica e pretensão de universalidade.
estruturalismo fundadorTzvetan Todorov, linguista e crítico literário búlgaro radicado na França, cunha em 1969 o termo narratologie no livro Grammaire du Décaméron (Gramática do Decameron, sem edição em português). O termo nomeia uma ciência da narrativa em analogia com a gramática da língua: uma disciplina que descreve estruturas, regras e paradigmas recorrentes em narrativas diferentes, em vez de analisar obras isoladas.
O foco se desloca do texto singular para os universais narrativos: o que todas as histórias têm em comum?
O termo ganha força em 1977, quando Mieke Bal, teórica da cultura e crítica literária neerlandesa, publica Narratologie em francês. Em 1985, Bal publica a versão em inglês, Narratology: Introduction to the Theory of Narrative (University of Toronto Press), que se torna a referência internacional do campo e é amplamente usada no Brasil em sua edição em inglês.
narratologia termoGérard Genette sistematiza a narratologia num conjunto de categorias que ainda hoje são o vocabulário técnico padrão do campo. Ele distingue três níveis: história (os eventos), discurso/narrativa (o texto que os conta) e narração (o ato de contar).
Dentro do discurso, analisa o tempo (ordem cronológica vs. ordem do relato, duração, frequência), o modo (distância e focalização: quem percebe) e a voz (quem narra, de onde, com que relação com a história).
Genette dá precisão técnica a intuições que circulavam desde os formalistas, construindo a sistematização mais influente da narratologia clássica.
tempo focalização vozSusan Sniader Lanser, crítica literária e teórica da narrativa americana e professora da Brandeis University, publica em 1986 "Toward a Feminist Narratology", inaugurando um campo que a narratologia estruturalista havia deixado de lado: o gênero importa para a análise narrativa. Quem narra, com que autoridade, para qual audiência são questões atravessadas por relações de poder.
A narratologia feminista estuda como o gênero dos autores, narradores, narratários e personagens afeta a estrutura e a recepção da narrativa. Lanser vai expandir o campo para a queer narratology, pensando como narrativas subvertem ou reforçam normas de sexualidade e gênero.
Esse movimento abre a narratologia para perguntas que ela tinha sistematicamente evitado, mostrando que a gramática da narrativa é influenciada por poder, corpo e história.
feminismo gênero vozDavid Herman, teórico da narrativa americano e professor da Ohio State University, cunha o termo narratologia pós-clássica para nomear o estado em que o campo havia chegado: um conjunto plural de abordagens relacionadas, cada uma mantendo as ferramentas clássicas enquanto as expande para novas perguntas.
A narratologia pós-clássica inclui vertentes cognitiva (como o leitor processa narrativas), digital (hipertexto, videogames, ficção eletrônica), retórica (ética, persuasão, relação autor-leitor), feminista, queer, decolonial e transmedial.
O pós-clássico incorpora Genette e Propp como um dos seus momentos, sem tomá-los como limite. É o mesmo movimento que a física pós-clássica faz com Newton: recontextualiza, sem invalidar.
pós-clássico pluralA partir do final do século XX, pensadoras negras, indígenas e decoloniais voltam suas lentes para a teoria narrativa e identificam um ponto cego persistente: o narrador canonizado pela tradição, de Aristóteles a Benjamin, é masculino, europeu e branco. A pergunta que passa a organizar esse campo é quem foi historicamente autorizado a narrar, e quais formas de contar foram classificadas como "folclore" ou "crendice" em vez de conhecimento.
Lélia Gonzalez, filósofa, antropóloga e intelectual negra brasileira, articula a centralidade da mulher negra na transmissão de valores afro-brasileiros pela oralidade e pelo cotidiano, descrevendo uma figura de narradora que a tradição teórica europeia produziu como ausência. Gayatri Chakravorty Spivak, teórica literária e crítica cultural indiana, com a pergunta "pode o subalterno falar?" (1985), desloca o problema: trata-se de ser ouvido, inscrito, reconhecido como produtor de sentido.
Feminismos indígenas pensam a narração oral como responsabilidade comunitária: uma prática de manutenção de mundos, recuperação de histórias apagadas e desarticulação da gramática narrativa eurocêntrica. Essas abordagens operam como uma torção no interior do campo, usando as ferramentas da teoria narrativa para questionar os pressupostos com os quais ela foi construída.
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